Como empresário do setor imobiliário, Guilherme Campos observa que Roraima carrega, sem que muita gente perceba, uma característica rara entre as cidades brasileiras: sua capital nasceu com um desenho urbano planejado, num país em que a maioria das cidades cresceu de forma espontânea e só depois tentou se organizar, corrigindo problemas que já estavam consolidados no traçado das ruas.
Boa Vista tem malha viária desenhada em formato radial, com ruas que partem do centro em direção às bordas da cidade, um traçado raro no Brasil e mais associado, no imaginário popular, a Brasília do que a uma capital da Amazônia, região historicamente marcada por ocupações menos planejadas.
A engana ideia de que cidades amazônicas são sinônimo de crescimento desordenado
Quando o assunto é urbanização na Amazônia, o exemplo que mais aparece é o oposto: cidades que cresceram rápido e sem planejamento prévio, como discutido em outros contextos sobre a região. Boa Vista foge dessa regra, porque seu desenho urbano central foi definido antes da maior parte da ocupação acontecer, numa época em que a cidade ainda era bem menor do que é hoje.
Guilherme Campos pontua que essa característica costuma passar despercebida até para quem mora na cidade, justamente porque o benefício de um bom planejamento urbano é silencioso: aparece na ausência de problemas, não em uma conquista visível do dia a dia.
O que torna o desenho radial de Boa Vista diferente?
No formato radial, as vias principais partem de um ponto central e se espalham como raios, com anéis intermediários conectando essas vias entre si. Isso cria trajetos mais diretos entre bairros e o centro, sem depender de um único corredor sobrecarregado por onde todo mundo precisa passar para chegar a qualquer lugar da cidade.

Esse tipo de traçado também facilita a expansão organizada da cidade para novas direções, porque o sistema viário já prevê, desde o desenho original, como os novos bairros vão se conectar à malha existente, em vez de improvisar ligações depois que a ocupação já aconteceu e as opções de traçado já estão limitadas pelas construções ao redor.
O que esse planejamento entrega na prática, décadas depois?
O resultado mais concreto desse desenho aparece no sistema de transporte da cidade, hoje com integração entre linhas convencionais e circulares em até uma hora e meia, usando uma única tarifa. Guilherme Campos assinala que trajetos mais diretos, típicos do formato radial, tornam essa integração mais viável do que seria numa malha viária desorganizada, em que cada linha precisaria contornar obstáculos que o próprio traçado das ruas foi criando ao longo dos anos.
Cidades que cresceram sem esse tipo de planejamento prévio costumam gastar décadas depois tentando reorganizar corredores de transporte que já nasceram tortos, um retrabalho caro que Boa Vista, em boa medida, evitou desde o início, ainda que o crescimento populacional recente também traga seus próprios desafios de mobilidade para a cidade administrar.
O que isso ensina para os próximos bairros da cidade?
Em síntese, Guilherme Campos constata que a lição do desenho radial não é que toda expansão futura precise repetir exatamente o mesmo formato, mas que o princípio por trás dele continua válido: pensar a conexão de um bairro novo com o resto da cidade antes de vender o primeiro lote, não depois.
Empreendimentos que nascem já integrados à malha viária pensada para a cidade como um todo tendem a evitar o mesmo tipo de gargalo de mobilidade que aparece em ocupações que cresceram sem esse cuidado inicial, um problema que só fica visível anos depois, quando já é caro demais para corrigir. Quem quiser acompanhar mais sobre urbanismo e desenvolvimento urbano em Roraima pode seguir o perfil @guicamposvlg no Instagram.