Ferramenta batizada de Nevo já passou por mais de 2 mil pessoas em Goiás e aponta casos suspeitos com acurácia acima de 94%, segundo a desenvolvedora
Uma dúvida comum entre quem acompanha os avanços da inteligência artificial na área da saúde é: um aplicativo de celular consegue, de fato, ajudar a identificar um câncer de pele antes mesmo de uma consulta médica? A resposta, ao menos em um projeto-piloto realizado no interior de Goiás, parece ser positiva. A startup brasileira AI Pathology desenvolveu a Nevo, uma solução que analisa fotos de lesões cutâneas tiradas por smartphone e sinaliza, em poucos segundos, quais casos merecem atenção especializada. A tecnologia usa infraestrutura da Nvidia e já passou por um teste real com trabalhadores rurais, o que ajuda a entender por que ela tem chamado atenção de médicos e pesquisadores. A seguir, entenda como a ferramenta funciona, o que ela realmente é capaz de fazer e quais são os limites dessa inovação.
Como a inteligência artificial analisa as lesões de pele
O funcionamento da Nevo parte de um princípio simples: o usuário fotografa a lesão com o próprio celular, sem necessidade de dermatoscópios ou qualquer equipamento profissional. A partir daí, a ferramenta cruza a imagem com informações contextuais, como a localização da lesão no corpo, o histórico médico do paciente e dados demográficos, para gerar uma avaliação de risco quase imediata. De acordo com a startup, a plataforma classifica o risco da lesão e encaminha os pacientes para avaliação dermatológica quando necessário, sem realizar o diagnóstico final, que continua sendo responsabilidade do médico. tecmundo
Por trás dessa análise estão redes neurais convolucionais, um tipo de algoritmo inspirado na forma como o córtex visual humano processa imagens. Segundo a empresa, esses sistemas conseguem reconhecer variações morfológicas, texturais e estruturais nas lesões, além da distribuição de cor, apontando se elas têm características benignas ou malignas, com acurácia superior a 94%. O processamento é rápido: cada imagem clínica leva menos de oito segundos para ser avaliada, o que se traduz em uma capacidade de analisar centenas de casos por hora. Isso explica o interesse de secretarias de saúde e entidades ligadas ao trabalho rural, setor historicamente mais exposto à radiação solar e com menor acesso a dermatologistas. A proposta não é substituir a consulta médica, mas reduzir o tempo entre a suspeita e o encaminhamento correto, algo que pode fazer diferença em regiões com poucos especialistas disponíveis. tecmundo
O que os primeiros resultados no campo mostraram
O projeto que testou a Nevo na prática foi realizado em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Goiás. Ao longo de sete meses, a ferramenta avaliou aproximadamente dois mil trabalhadores do campo, um grupo que passa boa parte do dia exposto ao sol e que, em muitos casos, nunca havia feito um exame dermatológico. O resultado prático foi a identificação de 75 casos que, depois de avaliação médica presencial, tiveram o diagnóstico confirmado. Pacientes classificados como suspeitos foram encaminhados a especialistas do Instituto Câncer de Pele de Goiânia e receberam tratamento gratuito, conforme informações divulgadas pela Nvidia sobre o projeto.
Esse tipo de resultado ajuda a explicar por que a triagem por imagem tem sido vista como um caminho de inclusão em saúde, especialmente em regiões afastadas dos grandes centros. Ao reduzir o tempo de triagem em até 90% na comparação com o processo manual, a ferramenta permite que equipes de saúde priorizem o atendimento aos casos de maior risco, otimizando recursos que costumam ser escassos. A AI Pathology já planeja expandir a aplicação da Nevo para outros estados, priorizando regiões com alta incidência solar e maiores índices de câncer de pele. A meta de longo prazo é criar uma rede mais ampla de triagem assistida por inteligência artificial, voltada à medicina preventiva. Ainda assim, é importante lembrar que a tecnologia funciona como uma etapa de rastreamento, e não como um diagnóstico definitivo, que continua exigindo avaliação médica presencial e, quando necessário, biópsia.
Inteligência artificial na saúde brasileira ganha força
O caso da Nevo se soma a um movimento mais amplo de adoção de inteligência artificial na área médica no Brasil, impulsionado tanto por startups quanto por hospitais e universidades. Ferramentas de triagem por imagem já vêm sendo testadas em outras especialidades, como radiologia e oftalmologia, sempre com o objetivo de agilizar processos que hoje dependem quase exclusivamente da disponibilidade de profissionais especializados, que costuma ser menor em cidades pequenas e áreas rurais. A vantagem de soluções baseadas em fotos de celular é justamente a baixa barreira de entrada: não é preciso investir em equipamentos caros, apenas em conectividade e em profissionais capacitados para interpretar os resultados e conduzir os encaminhamentos.
Ao mesmo tempo, esse avanço reacende debates sobre regulação, uso de dados sensíveis de saúde e a necessidade de validação clínica rigorosa antes de qualquer expansão em larga escala. Ferramentas como a Nevo dependem de aprovação e acompanhamento de órgãos de saúde para operar com segurança, e a interação entre tecnologia e prática médica segue sendo supervisionada por profissionais humanos em cada etapa. Para o paciente, a mudança mais perceptível tende a ser a rapidez: uma simples foto pode se tornar o primeiro passo de um encaminhamento que, antes, dependia de uma consulta presencial nem sempre acessível. É esse tipo de aplicação prática que tem consolidado a inteligência artificial como ferramenta de apoio, e não de substituição, dentro da medicina brasileira.
A tecnologia por trás da Nevo mostra um caminho possível para ampliar o acesso a diagnósticos precoces em regiões onde a dermatologia ainda é escassa, mas não elimina a necessidade de acompanhamento médico especializado. O modelo testado em Goiás reforça que soluções de triagem por imagem podem funcionar como uma ponte entre a população e o sistema de saúde, especialmente entre trabalhadores expostos a longas jornadas de sol. À medida que a AI Pathology avança com planos de expansão para outros estados, a expectativa é que mais brasileiros tenham acesso a esse tipo de rastreamento inicial, sempre seguido da avaliação de um profissional de saúde antes de qualquer conduta clínica.
Fontes: TecMundo | Nvidia Blog Brasil | Globo Rural