Rodrigo Gonçalves Pimentel, advogado e filho do desembargador Sideni Soncini Pimentel, pontua que empresas que atravessam um século de existência são fenômenos raros e estudados com interesse genuíno por pesquisadores, gestores e juristas que buscam compreender o que as distingue das que não chegaram lá. A longevidade institucional de empresas familiares não é resultado de sorte nem de circunstâncias favoráveis excepcionais, mas de um conjunto de decisões estruturais que foram tomadas com consistência ao longo de gerações. A análise desse tema revela por que o planejamento patrimonial é, em sua essência, um investimento na longevidade de tudo que foi construído.
A construção da longevidade nas empresas familiares
A estatística sobre a sobrevivência de empresas familiares continua sendo um alerta importante para famílias empresárias: poucas conseguem ultrapassar a terceira geração mantendo estabilidade e crescimento. As que conseguem atravessar décadas, e até mesmo um século, normalmente têm em comum estruturas de governança sólidas, culturas organizacionais bem definidas e mecanismos capazes de garantir continuidade mesmo diante das mudanças de liderança.
Rodrigo Gonçalves Pimentel percebe que a diferença entre empresas que se fortalecem ao longo das gerações e aquelas que se desgastam progressivamente está na forma como cada geração se relaciona com o legado recebido. Quando o patrimônio empresarial é tratado apenas como fonte de usufruto, a tendência é o enfraquecimento da estrutura construída pelos fundadores. Por outro lado, famílias que enxergam a empresa como uma instituição a ser preservada costumam investir em sucessão, governança e planejamento patrimonial com uma visão de continuidade muito mais sólida.

Essa lógica se reflete diretamente nas decisões tomadas ao longo do tempo: desde os critérios de sucessão e formação dos herdeiros até a escolha dos instrumentos jurídicos utilizados para organizar poder, patrimônio e responsabilidade dentro da família empresária.
Quais práticas estruturais sustentam a longevidade institucional?
A longevidade de empresas familiares não é um acidente. É o resultado de práticas estruturais que foram desenvolvidas e mantidas com consistência ao longo do tempo. Entre as que aparecem com maior frequência em empresas que atravessaram gerações com sucesso, destacam-se:
- Governança institucionalizada desde cedo: empresas centenárias tendem a ter constituído estruturas de governança formais antes que a necessidade as impusesse, criando sistemas de decisão que funcionam independentemente da presença de qualquer indivíduo específico;
- Separação clara entre família e empresa: a distinção entre o papel de familiar e o papel de gestor ou sócio foi formalizada e respeitada ao longo das gerações, evitando que dinâmicas afetivas comprometam decisões que precisam ser tomadas com critérios objetivos;
- Investimento sistemático na preparação dos herdeiros: cada geração foi preparada para compreender e valorizar o patrimônio antes de assumir qualquer responsabilidade sobre ele, criando uma continuidade de competência e de comprometimento que não dependia de talentos excepcionais;
- Revisão periódica dos instrumentos jurídicos e de governança: os documentos que organizam a estrutura foram revisados regularmente para refletir as mudanças na família, no negócio e no contexto em que operam, evitando que instrumentos desatualizados se tornassem fontes de conflito em vez de proteção.
Como o planejamento patrimonial contribui para a longevidade institucional?
O planejamento patrimonial é a dimensão jurídica da longevidade institucional. Ele organiza a transmissão do patrimônio de forma que cada geração receba não apenas os ativos, mas a estrutura que os protege e a preparação para gerenciá-los com responsabilidade. Sem esse planejamento, a longevidade depende da sorte de ter, em cada geração, indivíduos excepcionalmente capazes e comprometidos com a continuidade do que receberam. Com ele, a longevidade se torna um projeto estruturado que não depende de excepcionalidade individual para se sustentar.
Na análise de Rodrigo Gonçalves Pimentel, o planejamento patrimonial de empresas que pretendem ser centenárias precisa ter um horizonte temporal que vá além da próxima geração. Instrumentos constituídos apenas para resolver os problemas imediatos da transmissão atual tendem a criar vulnerabilidades para as gerações seguintes. A arquitetura que sustenta a longevidade precisa ser desenhada com a consciência de que será habitada por pessoas que ainda não existem, em contextos que ainda não podem ser completamente antecipados, e que precisa ter a flexibilidade necessária para se adaptar sem perder sua integridade fundamental.
Longevidade como responsabilidade coletiva
Rodrigo Gonçalves Pimentel pondera, por fim, que empresas centenárias são resultado de gerações que decidiram tratar o patrimônio recebido não apenas como propriedade individual, mas como uma responsabilidade coletiva voltada à continuidade do negócio e da família ao longo do tempo. A verdadeira longevidade institucional nasce da capacidade de cada geração fortalecer estruturas de governança, sucessão e organização patrimonial para entregar à próxima algo mais sólido do que recebeu. Mais do que preservar ativos, esse processo constrói um sistema capaz de sustentar crescimento, estabilidade e continuidade independentemente da presença dos seus fundadores.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez