Existe uma pergunta que incomoda muita gente que já tentou de tudo para emagrecer: por que a fome insiste em aparecer mesmo depois de uma refeição completa? Para o nutricionista esportivo Lucas Peralles, fundador do Método LP, a resposta raramente está na força de vontade. Está, muitas vezes, num órgão que poucas pessoas associam ao apetite: o intestino.
A microbiota intestinal, o conjunto de bactérias que habita o sistema digestivo, participa ativamente da produção de neurotransmissores e hormônios ligados à saciedade. Isso significa que, antes de qualquer decisão consciente sobre comer ou não, o corpo já recebeu sinais bioquímicos que influenciam diretamente esse impulso. Entender esse mecanismo muda a forma como se interpreta a fome persistente.
O intestino como um segundo centro de decisão
Cientistas chamam de eixo intestino-cérebro a comunicação constante entre o sistema digestivo e o sistema nervoso central. Por esse canal, bactérias intestinais produzem substâncias que influenciam a liberação de serotonina e outros neurotransmissores relacionados ao humor e à sensação de saciedade. Grande parte da serotonina do corpo, inclusive, é produzida no intestino, não no cérebro.
Lucas Peralles expressa que, quando alguém relata fome constante, mesmo comendo o suficiente, a primeira pergunta não deveria ser sobre quantidade de comida, mas sobre a saúde do próprio intestino. Essa mudança de perspectiva é o que diferencia uma avaliação superficial de uma investigação real sobre o comportamento alimentar da pessoa.
Como a disbiose intestinal confunde os sinais de fome
Quando a microbiota está desequilibrada, um estado chamado disbiose, geralmente causado por dietas pobres em fibras, uso excessivo de ultraprocessados ou estresse crônico, a comunicação entre intestino e cérebro passa a enviar sinais imprecisos. O resultado é uma sensação de fome que não corresponde à real necessidade energética do corpo.

Na avaliação de Lucas Peralles, esse é um dos fatores mais subestimados no comportamento alimentar. Muita gente tenta resolver a fome com mais restrição, quando, na verdade, o problema está na qualidade da alimentação e na diversidade de fibras que chegam até essas bactérias, explica. Na Clínica Peralles, ajustes na composição alimentar voltados à saúde intestinal costumam preceder qualquer estratégia de restrição calórica.
O papel das fibras e da diversidade alimentar na regulação da fome
Estudos publicados em periódicos como Nature Medicine mostram que a diversidade de fibras na dieta está diretamente relacionada à diversidade bacteriana no intestino, e essa diversidade, por sua vez, está associada a uma regulação mais eficiente do apetite. Pessoas com microbiota mais diversa tendem a relatar maior saciedade com quantidades menores de alimento.
Isso reforça um princípio central do Método LP: não se trata de comer menos, mas de comer de forma que o próprio corpo regule melhor a fome. Ao analisar esse cenário, Lucas Peralles costuma observar que pequenas mudanças na variedade de vegetais, leguminosas e grãos integrais produzem efeitos perceptíveis na sensação de saciedade em poucas semanas, sem que a pessoa precise contar calorias obsessivamente.
Autonomia alimentar como consequência do equilíbrio intestinal
Quando a fome deixa de ser um sinal confuso e passa a refletir a real necessidade do corpo, a pessoa recupera algo essencial: autonomia sobre as próprias escolhas alimentares. Isso reduz a dependência de regras rígidas e de dietas restritivas, que costumam falhar justamente por ignorarem esse componente biológico.
De acordo com Lucas Peralles, essa é uma das transformações mais visíveis entre os pacientes acompanhados pelo Método LP. “Quando a fome faz sentido, a pessoa para de lutar contra o próprio corpo. Ela passa a confiar nos sinais que recebe, e isso muda completamente a relação com a comida”, afirma. Esse é um dos motivos pelos quais o método prioriza qualidade e diversidade alimentar antes de qualquer ajuste calórico.
Entender que o intestino participa ativamente da regulação da fome é dar um passo além da lógica simplista de “comer menos, gastar mais”. É reconhecer que o corpo opera com mecanismos complexos, e que respeitá-los é o caminho mais eficiente para resultados duradouros. Assim, a fome deixa de ser vista como um obstáculo a ser vencido pela força de vontade e passa a ser compreendida como uma informação valiosa sobre o estado do próprio organismo, uma informação que, quando bem interpretada, facilita decisões alimentares mais conscientes e sustentáveis.